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Lembra-te de Mim

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28.10.20

NAVEGAR E PERDER-ME CONTIGO

Débora

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Cheguei a casa depois do trabalho e esta estava em silêncio. Enquanto guardava as coisas, comecei a ouvir música vinda do nosso quarto. Segui o som e sem te incomodar, pois estavas no teu mundo onde respeito e sei que precisas dele. Precisas do teu tempo e espaço.
 Abri ligeiramente a porta do quarto e então o som da música aumentou ligeiramente como me convidasse a entrar no teu templo. Estavas a trabalhar no primeiro livro. E foi aí que me deliciei encostada à entrada da porta ao ver-te ser consumido pela paz de espírito que te é necessário: estavas sentado apenas com calças de ganga e escrevias no caderno preto onde escreves sempre. Não deste pela minha presença mas eu nunca desviei o olhar do que estava a ver. O teu olhar fixo em cada folha que enchias de tinta. Franziste de novo a testa. Mais uma ideia boa e escrevias com mais assertividade como não quisesses largar nem perder pitada das ideias que te surgiam. Começaste a morder o lábio. Oh sim, se o anterior que escrevias estava a ser bom, agora, ainda estava a ser melhor.
 Enquanto escrevias com a mão direita, agarravas o caderno com a mão esquerda e os dedos estavam borrados de tinta. Tens andado mesmo empenhado, meu querido. Os últimos dedos da mão esquerda gesticulavam ao som da música.
 Rodaste o pescoço como se precisasses de descanso e foi aí que me viste. Sorriste de imediato e aí esperei que me dissesses que podia entrar no teu mundo onde combinamos que te deixasse perder pelas histórias que te ocorriam. A história que escrevias era uma incógnita, pois só me deixavas ler quando terminasses.
 Beijaste-me e ainda me perguntaste como foi o meu dia. Ia-te deixar de novo no teu mundo, quando me puxaste pela cintura. Tiveste saudades minhas. E eu tuas, meu amor.
 Despimo-nos e fizemos amor com toda a delicadeza e disfrutamos de uma viagem ao paraíso. Perdemo-nos nos braços um do outro. Naquele momento eu era uma folha de papel onde tu escrevias cada história e aventura a não querer perder.
 Quando acabamos, ficaste deitado de barriga para baixo e olhavas para mim. A minha mão navegava pelas tuas costas como se procurasse algum tesouro por descobrir. Perdi-me no teu olhar como alguém se perde no mar e precisa de uma bússola para se orientar.
 Só queria continuar à deriva e ter-te como porto de abrigo.
 De todos os escritores que leio, tu és o meu favorito e ainda não li nada teu. Mas a tua alma... essa é de poeta.

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